2.
Seu nome era Taisson.Moreno, dezessete anos,um metro e oitenta e cinco de altura, sorriso charmoso e corpo atlético.Assim era sua descrição no Orkut, famosa página de relacionamentos da Internet.Não estava muito longe da verdade, se não fossem pelos seus um e setenta e cinco de altura e uma urgente necessidade de ir atrás de um dentista.Necessidade menor apenas que as próprias necessidades que sua família passava em casa.Moreno, dezessete anos.Físico correspondente com o perfil sedentário adolescente.
Tudo bem,afinal de contas ele não se preocupava tanto assim com a aparência.Tanto é, que nesse mesmo mês, decidiu que assim que possível, trocaria seu velho C50 por um celular com câmera e tudo mais.Publicaria até suas fotos na Internet.Logo que arrumasse um emprego.E depois que concertasse os dentes.
Todos os dias, Taisson acordava sozinho em casa.Seu pai tinha que acordar muito cedo para ir ganhar a vida na feira.Seu pai era peixeiro,e não faltou oportunidades para Taisson seguir a profissão. ¿Peixeiro fede...¿ ¿ pensava Taisson, ainda na cama, lembrando das raras vezes em que ajudou seu pai na feira.
Sua mãe era doméstica,e levantava logo em seguida do pai de Taisson.
Assim, Taisson acordava cerca de vinte minutos depois que sua mãe saia.Pena que nesse dia ele acordou quarenta minutos depois.Pena,por que era sua terceira vez.
¿Na terceira vez você dança,menino ! Se eu chegar em casa de novo e encontrar você aqui eu acabo com você na porrada !¿
Taisson deu um baita pulo da cama,logo que lembrou da ameaça que seu pai lhe fizera na ultima vez que perdeu a hora.Ou melhor,ontem.
Em menos de cinco minutos já estava na rua em direção á escola.
- Peixeróóó !!! - ouviu algum engraçadinho soltando aquilo que já se tornara clássico,da janela do andar de cima da escola,assim que pisou em seu quarteirão.Nem precisava ir até o portão da frente da escola,isso provava que os alunos já estavam na classe,portanto,o portão já estava fechado.E nem pensar em ir pra diretoria.A suspensão era certa e isso significava um passaporte pra uma surra.Eis então que ele lembra que a primeira aula é de educação-física.
- Obrigado homem-cósmico. - disse á si mesmo.
Dirigiu-se ao estacionamento dos professores,e mais rápido que imaginara,conseguiu pular o muro que dava acesso ao jardim da escola.O jardim-secreto da escola,melhor dizendo,pois só era visitado pelos alunos que cuidavam de regá-lo, quando o jardineiro vinha dar uma olhada uma vez por semana, sempre na quinta,quando alguma personalidade importante(como se alguém importante aparecesse por lá) ou quando algum funcionário que possuía a chave precisava fumar.Fumar nas dependências da escola era pertinentemente proibido.A regra era clara quanto a isso.
Passando pelo primeiro obstáculo,precisava apenas arrumar uma maneira de pular um muro de quase três metros,que separava o muro do jardim da quadra de vôlei.
- Okey,girls...vejamos... - sempre dizia besteiras desse tipo quando estava pensando... ¿ ¿Esse banco deve servir...¿ - concluiu ele,tentando puxar um banco de mármore de quase 40 kg ¿ ¿...melhor não....não vai servir.¿
Na verdade ele não conseguiu foi tirá-lo do lugar.
Um sapinho quebrado fez ele lembrar da ultima vez que entrou naquele lugar.Foi na terça,seu dia de regar o jardim.Era assim,cada dia da semana um grupo de voluntários do terceiro ano descia para molhar o jardim.De quebra,matavam a aula,fumavam um baseado e trazia suas respectivas garotas para ¿mostrar o jardim.¿.Matar aula,usar drogas e namorar nas dependências da escola era expressamente proibido.Lógico que haviam exceções no grupo de alunos que descia para regar o jardim,havia sim os conscientes e naturólogos, que sabiam que a vida era muito mais que namorar e fumar maconha por aí, e Taisson não era uma dessas exceções.Á não ser pela parte do namoro,que nunca foi o seu forte.De duas únicas namoradas, tirou dois chifres dolorosos.Entre um chifre e outro, deve ter perdido o jeito pra coisa, pois já fazia quase um ano que não comia ninguém.
¿...tudo bem,vamos dar o fora daqui antes que...¿
O tilintar das chaves no portão que dava acesso o pátio ao jardim,não deixou Taisson completar seu raciocínio, que rapidamente se escondeu atrás da caixa-de-água.Era a Maria,a inspetora,que deve ter dado uma escapulida pra fumar o seu precioso cigarro.Sentou-se no mesmo banco de mármore que Taisson havia tentado mover, tirando uma garrafinha de Corote de dentro da blusa azul do Grêmio que nunca trocava.
¿Bem que os boatos de mangüaceira dessa velha eram verdade...olha só que fita...¿ - Pensava, concentrando-se para não rir e respirando bem baixinho,indo de fininho por trás da inspetora, em direção ao portão de acesso ao pátio.
- Peixeiróóóóóooooooo.....hahahahaha.... - grita algum desgraçado lá de cima, enquanto Taisson é subitamente atacado por um bombardeamento de bolinha de papel, fazendo Maria apagar o cigarro no bolso e jogar á garrafinha de Corote á cinco metros de distancia....
- SEU FILHO DA... - Taisson é interrompido pelo apito da inspetora.
-Pera-lá mocinho,olha lá o que você vai dizer.O que eu falei sobre os palavrões ? O que você ta fazendo aqui dentro heim ? Posso saber ?
- É que...é que hoje é meu dia de molhar o jardim....
- Moleque mentiroso...já to sabendo que é a terceira vez que cê chega atrasado,Taisson....no mínimo tava tentando entrar escondido....
- Que é isso,eu juro que só vim molhar o jardim !
- De mochila e tudo ? Vem cá,moleque,que eu nem vi você entrando hoje enquanto vistoriava os alunos....
- Mas é...é que... - gaguejou Taisson enquanto pensava o que ia fazer com seu delator.
- Guarda suas desculpas pra diretora,menino,vai andando - disse agarrando o braço de Taisson com sua força corrompida pela idade.
- Me larga que eu sei muito bem o caminho.E me diz qual desculpa você vai usar quando eu contar pra diretora o que a senhora anda fazendo toda manhã aqui no jardim...
- Ah moleque sem-vergonha....você não seria capaz....você não seria ca...
- E a senhora,seria ? ¿ interrompeu Taisson.
Maria olhou no fundo da alma de Taisson, que se mantinha frio com um sorriso cínico,que nem o silêncio que a situação causara por alguns minutos foi capaz de desmanchar.
A mão de Maria afrouxara,decretando a vitória do menino.
- Sai fora daqui moleque...sai antes que eu...eu....- Maria parecia que ia ter um ataque cardíaco.
- Valeu tia....me arruma um cigarro ?
Descatraquizado por Oddie -
08:47


É facil gostar do frio quando se tem a manta pra se aquecer.
Não é rara a arrogancia daqueles que tem um prato pra comer.
Como é facil falar de amor,aquele que nunca teve a alma despedaçada.
Como posso fugir dos seus olhos,se eles estão em cada espaço do meu quarto.
E como esquecer o seu sorriso,se ele já faz parte de mim.
Jester,o arlecrim
Descatraquizado por Oddie -
08:51
